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Quer se casar comigo?

Por Alessandra Assad*

Se uma empresa demonstrar que tem os valores iguais aos meus, eu caso com ela”. A declaração publicada numa revista de negócios brasileira veio de uma jovem trainee de multinacional. E o que parece complicado, a grosso modo, se faz parecer assim tão simples. Será mesmo que um casamento envolve só os mesmos valores? O que mais importa na hora de você selecionar alguém para passar o resto da vida junto com você?

Com as empresas não é diferente. O que mudou com o tempo foram os movimentos das gerações. Da mesma forma que antigamente casamento era para vida toda, em meados da década de 1980 já se valorizava bastante o profissional que tivesse passado por muitas empresas diferentes. Na época, acreditava-se que isso era sinônimo de experiência. E não por coincidência, foi uma década na qual registrou uma geração infeliz no casamento também. Veja que coincidência esquisita.

Hoje sabemos que essa troca constante pode ser considerada algo negativo, dependendo da empresa em que trabalha, do cargo exercido e da estratégia da sua carreira. Passar mais de dez anos em uma única empresa já pode novamente significar sabedoria e experiência. Por que não, realização?

Veja só o que aconteceu com Jose, que entrou na onda de ficar trocando de empresa porque achava justamente que poderia abrir o seu campo de visão profissional se tivesse experiências múltiplas. Ao longo de sete anos, trabalhou em quatro empresas, em diferentes cargos, e áreas de negócios. Ele conta que a empresa onde começou sua carreira até hoje deixa saudades. “Cada vez que eu mudo de empresa, no fundo o que eu procuro é o clima organizacional parecido com o que aquela primeira empresa me oferecia. Eu nunca fui tão feliz em minha vida, e lá eu poderia ter crescido tanto quanto cresci aqui fora, só que eu não sabia disso. Tinha sede de experiências novas e diferentes. E a experiência que adquiri do lado de fora foi muito válida, mas me mostrou principalmente o quanto eu era feliz e não sabia”.

A natureza do ser humano nos faz querer mais e buscar mais. E isso não é de todo ruim. Obviamente que este cenário ainda é muito melhor do que ficar estagnado na zona de conforto, mas existe algo que é muito precioso e que temos de levar em conta cada vez que pensamos em mudar de empresa: qual é o DNA da empresa em questão? Qual é o meu DNA? Será que a genética vai produzir um filho perfeito neste casamento, ou você vai querer passar o resto da sua vida achando que está carregando algo imperfeito nas costas, quando este algo é a sua própria capacidade ou incapacidade de tomar decisões assertivas?

A resposta é clara: DNA. Ou seja, não adianta você querer se casar com alguém que é completamente diferente de você achando que com o tempo vai mudar essa pessoa, porque o máximo que pode conseguir é um meio termo. Com raras exceções conseguimos mudar o DNA de alguém sem precisar fazer este indivíduo, ou empresa, nascer de novo. Mas que fique bem claro: são exceções e a chance de você ser o grande ganhador da loteria é de uma em um milhão, ainda que a sorte possa aparecer sim para todos.

Quando falo de DNA corporativo, estou me referindo a um conjunto de valores, crenças, atributos, premissas e comportamentos, que acabam conferindo uma identidade própria para determinada empresa. Trata-se de um conjunto de coisas naturais, feitas sem pensar, que acabam virando um conjunto de valores que se transformam na herança da empresa. Algumas vezes esse código genético é o mesmo do dono da empresa, o que significa que esta fica com cara, corpo e coração do dono. É o código genético que faz uma empresa ser única sob o ponto de vista corporativo e competitivo. E este código é formado pelo que chamamos de missão, visão e valores.

Talvez você esteja se perguntando: e como é que a gente faz para reconhecer esse DNA? Eu diria que ele é muito mais sentido que tocado. Mas,  pode ser tocado sim, desde que tenha uma força surpreendente em sua missão. É interessante como aqui no Brasil damos tão pouco valor para a missão das empresas. Às vezes até achamos que esse negócio de missão, visão e valores são protocolos chatos dos cursos de administração de empresas. Ledo engano.

Ainda é fato que muitos dos funcionários que conhecem a missão de suas empresas, decoraram o que leram em algum manual de boas-vindas. Mas na prática, é a missão que vai conduzir as decisões mais importantes que você vai tomar todos os dias, e é ela que vai dizer quanto de longevidade a sua empresa vai ter no mercado.

Você certamente já ouviu alguém dizer, se for para criar uma empresa, crie uma causa que as pessoas abracem e transforme isso num negócio. É exatamente esse o caminho. As pessoas dificilmente vão abraçar o seu sonho como missão delas, mas a sua causa é diferente, principalmente se ela for forte o bastante para tocar os corações dos seus colaboradores. É como se casar com alguém que você nem mesmo sabe o nome direito.

E, aqui entre nós, você saberia dizer agora, com as suas próprias palavras, qual a missão da sua empresa?

Fonte da Notícia: http://www.abrhbrasil.org.br/cms/materias/artigos/quer-se-casar-comigo/      Publicado: 19/04/2016
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