Associação Brasileira de Recursos Humanos

Os desafios para garantir às mulheres acesso justo ao mercado de trabalho

Estudo evidencia que mulheres encontram dificuldades significativamente maiores do que os homens para acessar crédito e expandir seus negócios

Por Kamilla Matos

A presença das mulheres no mercado de trabalho é um dos pontos centrais no debate sobre desenvolvimento social e econômico. Embora avanços tenham sido registrados, a desigualdade de gênero ainda se manifesta em múltiplas dimensões, desde a remuneração até o acesso a oportunidades de crescimento e liderança.

Segundo o relatório Empreendedoras e Seus Negócios 2024 (RME), no Brasil, muitas mulheres recorrem ao empreendedorismo não apenas por vocação, mas como forma de conciliar papéis. A independência financeira (45,1%), a flexibilidade de horário (36,7%) e o aumento de renda (36,0%) estão entre os principais motivos que levam à criação de negócios próprios. No entanto, a sobrecarga de trabalho doméstico e o cuidado com filhos (21,8%) continuam sendo fatores que moldam suas escolhas, limitando as condições de permanência e crescimento no mercado de trabalho formal.

As barreiras não são apenas de ordem pessoal, mas também estruturais. O estudo Women’s Entrepreneurship in Brazil – UNDP & MDIC (2024) evidencia que mulheres encontram dificuldades significativamente maiores do que os homens para acessar crédito, expandir seus negócios e integrar redes estratégicas. Isso as coloca em desvantagem na busca por sustentabilidade e escalabilidade de seus empreendimentos.

Em escala global, o relatório Women @ Work (Deloitte, 2024) mostra que uma em cada quatro brasileiras considera deixar o modelo corporativo tradicional, não pela ausência de competência, mas pela incompatibilidade entre as exigências das carreiras formais e a vida real que enfrentam. Já o Global Gender Gap Report (Fórum Econômico Mundial, 2023) indica que, ao ritmo atual, a igualdade plena de gênero em participação econômica, política e social só será alcançada em 131 anos.

A análise desses dados revela que garantir às mulheres acesso justo ao mercado de trabalho não se limita à criação de vagas ou ao aumento do número de empreendedoras. É preciso criar condições reais para permanência e prosperidade: políticas de apoio ao cuidado, redes de crédito acessíveis, ambientes corporativos mais equitativos e estratégias de combate às desigualdades salariais e de representatividade.

Em suma, pensar nesse desafio é pensar não só em justiça social, mas também em eficiência econômica. A cada barreira mantida, perde-se não apenas talento individual, mas também inovação, crescimento e competitividade. Reconhecer os obstáculos é o primeiro passo; o próximo é estruturar caminhos concretos para superá-los.

Kamilla Matos é consultora, mentora de mulheres e diretora da ABRH-ES.

Fonte: https://esbrasil.com.br/os-desafios-para-garantir-as-mulheres-acesso-justo-ao-mercado-de-trabalho/