Gestão inadequada e metas pressionam saúde emocional nas empresas brasileiras
Por Neidy Christo
Durante muito tempo, a saúde mental no trabalho foi tratada como assunto periférico. Algo importante, mas quase sempre deslocado para uma palestra pontual, uma campanha ou um benefício oferecido pelo RH. A empresa fazia uma ação e seguia a rotina como se o problema estivesse resolvido.
Mas ele não está.
O adoecimento emocional deixou de ser apenas uma pauta sensível para se tornar uma questão estratégica, jurídica, econômica e humana. O chamado às organizações brasileiras é compreender que saúde mental não se sustenta só com acolhimento individual. Ela também depende da forma como o trabalho é organizado, cobrado, liderado e vivido todos os dias.
A atualização da NR-1, que inclui os riscos psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais, colocou luz sobre algo que muitos profissionais já sentem. Metas inalcançáveis, comunicação agressiva, excesso de pressão, assédio, falta de clareza e lideranças despreparadas produzem sofrimento. E isso não pode mais ser tratado como fragilidade individual.
Segundo a Gallup, apenas 20% dos trabalhadores no mundo estavam engajados em 2025. No Brasil, 45% dos profissionais afirmaram ter sentido muito estresse no dia anterior. Os dados reforçam o que a prática já revela: o trabalho está pedindo revisão, não apenas resiliência.
É claro que cada pessoa tem sua história, seus limites e sua responsabilidade pelo autocuidado. Mas há uma pergunta que as empresas precisam enfrentar: até que ponto oferecemos programas de saúde mental enquanto mantemos práticas de gestão que adoecem?
Não basta oferecer terapia, aplicativo de meditação ou palestra motivacional se a cultura continua premiando urgências desnecessárias, silenciando conflitos ou confundindo disponibilidade total com comprometimento. Quando a organização cuida do sintoma, mas preserva a causa, apenas sofisticou a negligência.
Nesse cenário, o papel da liderança é central. Líderes não precisam ser terapeutas. Mas precisam compreender o impacto de suas decisões e omissões sobre o clima emocional da equipe. Uma liderança que não escuta e não cria segurança para que as pessoas falem também produz risco.
Também é preciso abandonar a ideia de que saúde mental é responsabilidade exclusiva do RH. O RH pode estruturar políticas e fomentar práticas saudáveis. Mas quem constrói a experiência cotidiana é a liderança direta.
A nova agenda do trabalho exige empresas mais responsáveis e lideranças mais conscientes. Isso significa mapear riscos psicossociais, revisar metas, qualificar gestores e transformar saúde mental em indicador de gestão.
Ambientes saudáveis não nascem de frases bonitas na parede. Nascem da forma como se cobra resultado e da coragem de enfrentar líderes tóxicos.
Saúde mental no trabalho não é moda. É condição para que pessoas possam trabalhar com dignidade, vínculo e potência.
E a pergunta que fica é simples, mas incômoda: sua empresa está realmente cuidando da saúde mental das pessoas ou apenas tentando administrar os efeitos de uma cultura que ainda insiste em adoecer?
Neidy Christo é presidente da ABRH-ES, doutora em Administração e Consultora em Desenvolvimento Humano

Fonte: https://esbrasil.com.br/45-porcento-brasileiros-estresse-trabalho/