Associação Brasileira de Recursos Humanos

Como enfrentar barreiras sem perder a própria voz

Enfrentar barreiras não significa aceitar que elas existam para sempre. Significa desenvolver consciência, estratégia e coragem

Por Neidy Christo

Falar sobre mulheres na liderança é falar de competência, mas também de resistência. Ainda hoje, muitas mulheres chegam aos espaços de decisão depois de atravessar caminhos mais estreitos, mais vigiados e, muitas vezes, mais solitários.

Os avanços existem, mas os dados mostram que a desigualdade ainda persiste. O relatório Women in the Workplace 2025, da McKinsey, aponta que mulheres continuam recebendo menos apoio e menos oportunidades de avanço em suas trajetórias. No Brasil, dados do DIEESE de 2025 também revelam que, quanto mais alta a faixa de rendimento, menor é a presença feminina. Entre o 1% mais bem remunerado, apenas 22% são mulheres.

Esses números ajudam a explicar algo que muitas de nós sentimos na prática: não basta chegar. É preciso permanecer, crescer, ser ouvida e reconhecida.

Na minha pesquisa de doutorado, entrevistei 51 mulheres com mais de 50 anos sobre suas trajetórias profissionais. Muitas relataram barreiras como invisibilidade, necessidade constante de provar competência, preconceito de gênero e idade, além da pressão para se manterem relevantes em ambientes que nem sempre valorizam a maturidade. Mas o que mais me chamou atenção não foram apenas as barreiras. Foram as formas de enfrentamento.

As mulheres enfrentam resistindo, mas também escolhendo. Enfrentam quando investem em formação continuada, atualizam suas competências, constroem redes de apoio, buscam mentoria, fortalecem sua autoconfiança e aprendem a se posicionar com mais clareza. Enfrentam quando dizem “não” a ambientes adoecedores e “sim” a oportunidades que fazem sentido com seus valores.

Uma das estratégias mais poderosas é o autoconhecimento. Mulheres que compreendem suas forças, limites e motivações tendem a negociar melhor, comunicar-se com mais segurança e tomar decisões menos guiadas pela culpa e mais orientadas pela consciência.

Outra forma de enfrentamento é a construção de redes. Nenhuma mulher deveria precisar crescer sozinha. Redes profissionais, grupos de troca, mentorias e alianças femininas ampliam repertório, abrem portas e oferecem apoio em momentos decisivos. Competência é individual, mas avanço também depende de contexto e conexão.

Também é fundamental abandonar a ideia de que liderança feminina precisa imitar modelos masculinos tradicionais. Não precisamos liderar pela dureza para sermos respeitadas, nem pela exaustão para sermos reconhecidas. Liderar com escuta, firmeza, empatia e visão estratégica não é fragilidade. É maturidade.

As organizações, por sua vez, precisam ir além do discurso. Promover mulheres exige rever critérios de promoção, combater vieses, garantir oportunidades reais de desenvolvimento e criar ambientes seguros para que diferentes estilos de liderança possam florescer.
No fim, enfrentar barreiras não significa aceitar que elas existam para sempre. Significa desenvolver consciência, estratégia e coragem enquanto trabalhamos para transformar as estruturas que ainda limitam tantas trajetórias.

Talvez o nosso maior desafio na liderança não seja provar que somos capazes. Isso já fazemos todos os dias. O desafio é construir caminhos onde não precisemos nos diminuir, endurecer ou nos esgotar para sermos reconhecidas.

Neidy Christo é presidente da ABRH-ES, doutora em Administração e Consultora em Desenvolvimento Humano

Neidy Christo é presidente da ABRH-ES, doutora em Administração e Consultora em Desenvolvimento Humano

Fonte: https://esbrasil.com.br/mulheres-barreiras-avanco-lideranca-2025/