Perfeccionismo excessivo dificulta a ascensão profissional feminina, criando barreiras e reduzindo visibilidade em cargos de liderança
Por Kamilla Matos
Durante muito tempo, o perfeccionismo foi tratado como uma qualidade. Afinal, quem não gostaria de ser reconhecida pelo cuidado com os detalhes, pela organização e pela busca constante por excelência? O problema é que existe uma linha tênue entre produzir um trabalho de qualidade e acreditar que só vale a pena agir quando tudo estiver impecável.
Embora o perfeccionismo possa se manifestar como uma característica individual, ele também é influenciado pelas mensagens que recebemos ao longo da vida. Muitas mulheres crescem sendo incentivadas a agradar, acertar, evitar conflitos e corresponder às expectativas. São frequentemente reconhecidas pelo capricho, pela responsabilidade e pelo bom comportamento. Já os homens, em geral, recebem mais estímulos para experimentar, competir, assumir riscos e lidar com o erro como parte do aprendizado. Essas experiências ajudam a moldar a forma como homens e mulheres constroem sua relação com o desempenho, a exposição e o fracasso.
No livro Como as Mulheres Chegam ao Topo, Sally Helgesen e Marshall Goldsmith defendem que o perfeccionismo é um dos hábitos que mais limitam a ascensão feminina, pois leva muitas mulheres a acreditarem que precisam demonstrar competência o tempo inteiro. Essa lógica cria uma armadilha: enquanto aguardam sentir que estão totalmente preparadas, deixam de ocupar espaços importantes de visibilidade.
Esse comportamento ajuda a explicar situações bastante comuns nas organizações. Mulheres que só se candidatam a uma vaga quando atendem a praticamente todos os requisitos, que revisam uma apresentação inúmeras vezes antes de enviá-la, que evitam expor uma ideia ainda em construção ou que recusam novos desafios por acreditarem precisar de mais experiência. A carreira, porém, raramente recompensa apenas quem está mais preparado. Ela também recompensa quem se dispõe a aprender durante o percurso.
Há ainda outro fator que amplia essa pressão. Mulheres em posições de liderança costumam ser avaliadas por critérios diferentes dos homens. Estudos sobre o fenômeno conhecido como double bind mostram que características valorizadas em líderes, como firmeza e assertividade, podem ser interpretadas de forma negativa quando expressas por mulheres. Muitas respondem a esse cenário tentando eliminar qualquer possibilidade de erro, como se uma única falha pudesse comprometer toda a credibilidade construída.
O enfrentamento do perfeccionismo também passa pela cultura organizacional. Ambientes em que mulheres precisam provar repetidamente sua competência ou são julgadas com maior rigor por erros e comportamentos criam um terreno fértil para esse padrão. Quando a expectativa de performance é diferente entre os gêneros, o perfeccionismo deixa de ser apenas uma característica individual e passa a ser uma resposta adaptativa ao contexto. Por isso, revisar critérios de avaliação, desenvolvimento e promoção é tão importante quanto incentivar mulheres a assumirem riscos e ampliarem sua autoconfiança.
Reduzir o custo do perfeccionismo exige reconhecer que essa é uma responsabilidade compartilhada. Mulheres se beneficiam ao desenvolver uma relação mais saudável com o erro, compreendendo que a carreira também é construída por meio da experimentação, do aprendizado e da exposição a novos desafios. As organizações, por sua vez, precisam garantir que competência seja reconhecida por critérios consistentes, independentemente do gênero. Ambientes que exigem excelência de todos, mas perfeição de algumas pessoas, não apenas limitam carreiras individuais, como também desperdiçam talento, diversidade de pensamento e potencial de liderança.
Kamilla Matos é diretora da ABRH-ES e facilitadora de aprendizagem

Fonte: https://esbrasil.com.br/perfeccionismo-limita-carreira-mulheres/