A maioria dos jovens não está em busca de enriquecimento rápido. Eles querem ser ouvidos, aprender com autonomia e fazer algo significativo
Por Suzana Carneiro
Nos últimos anos, o mercado de trabalho brasileiro tem enfrentado um paradoxo silencioso: mesmo com vagas abertas, programas de inclusão e oportunidades de capacitação, muitas empresas têm dificuldades para atrair jovens para o primeiro emprego.
Mas o problema não está apenas na falta de preparo técnico está, principalmente, na falta de interesse.
Essa realidade desconcerta empresários, educadores e profissionais de RH. Afinal, por que tantos jovens, mesmo diante da escassez de oportunidades, não se engajam nas que existem? A resposta pode estar menos na desmotivação e mais na desconexão com os modelos tradicionais de trabalho.
Rotular essa geração como “preguiçosa” ou “acomodada” é ignorar o contexto em que ela cresceu. Muitos jovens da chamada Geração Z vivenciam pressões intensas: instabilidade social, crises econômicas, mudanças climáticas, hiperexposição nas redes sociais e, ainda, a ausência de perspectivas reais sobre o futuro.
Eles não se interessam por qualquer vaga; buscam propósito, autonomia e respeito. Rejeitam ambientes engessados, lideranças autoritárias e empresas que ainda veem o trabalho como punição, e não como desenvolvimento.
Outro ponto relevante é que muitos processos seletivos estão ultrapassados. Entrevistas frias, exigência de “postura profissional” sem acolhimento, ambientes tóxicos e jornadas inflexíveis acabam afastando os jovens talentos.
A maioria dos jovens não está em busca de enriquecimento rápido. Eles querem ser ouvidos, aprender com autonomia e fazer parte de algo significativo. No entanto, muitas empresas continuam oferecendo cargos sem clareza de função, sem trilhas de crescimento e com pouca escuta ativa.
O profissional de Recursos Humanos tem hoje um papel estratégico na transformação dessa realidade. O primeiro passo é abandonar estigmas e criar processos mais humanos, empáticos e inclusivos. RHs que acolhem e escutam conseguem conectar melhor o jovem ao ambiente de trabalho.
Algumas ações práticas que podem fazer a diferença. Substituir entrevistas tradicionais por dinâmicas de escuta ativa e rodas de conversa é uma delas. Também saem na frente, empresas que criam trilhas de desenvolvimento reais, com acompanhamento e orientação para o jovem; e capacitam líderes para atuar como mentores e educadores, que valorizam o erro como parte natural do processo de aprendizagem.
A juventude brasileira não está desinteressada. Está, sim, mais consciente, exigente e crítica e com toda razão. Essa geração quer trabalhar, mas não quer se perder em ambientes sem propósito, sem diálogo e sem evolução.
O desafio do primeiro emprego não se limita à oferta de vagas. Está, sobretudo, na qualidade do ambiente que oferecemos para esses novos profissionais. É hora de repensar o que significa “dar uma chance”, porque essa chance só será real se vier acompanhada de respeito, acolhimento e desenvolvimento.
Suzana Carneiro é especialista em gestão de pessoas e voluntária da ABRH-ES

Fonte: https://esbrasil.com.br/o-mercado-esta-pronto-mas-cade-os-jovens/