Confiança e sentido são essenciais para reter profissionais no mercado atual
Por Neidy Christo
Durante muito tempo, a relação entre empresas e profissionais foi sustentada por um contrato silencioso: a organização oferecia emprego, salário e alguma estabilidade; o profissional entregava tempo, esforço e lealdade. Esse acordo não escrito funcionou por décadas. Mas ele mudou.
Hoje, as pessoas continuam querendo trabalhar, crescer e contribuir. O que mudou foi a forma como avaliam se vale a pena permanecer. O vínculo não se sustenta apenas pela carteira assinada, pelo cargo ou pelo benefício. Ele passa pela confiança, pelo respeito, pela coerência da liderança e pela percepção de que o trabalho faz sentido.
Os dados ajudam a entender esse movimento. O relatório State of the Global Workplace 2026, do Instituto Gallup, mostra que apenas 20% dos trabalhadores estavam engajados em 2025, o menor índice desde 2020. Ao mesmo tempo, 52% afirmaram perceber o mercado local como favorável para encontrar uma nova oportunidade. Quando o vínculo emocional enfraquece e o profissional percebe alternativas, a permanência deixa de ser óbvia.
A consultoria Deloitte, no Global Human Capital Trends 2025, reforça essa virada ao destacar que as organizações precisam repensar trabalho, força de trabalho e cultura para liderar desempenho humano sustentável. Não basta exigir entrega. É preciso criar condições para que as pessoas queiram e consigam entregar.
Esse é o novo contrato emocional: menos baseado em controle e mais baseado em confiança. Menos sustentado por promessas bonitas e mais por experiências consistentes. Menos “vista a camisa” e mais “faça parte de algo que também respeita quem você é”.
Tenho observado que muitos profissionais não se desligam primeiro da empresa. Eles se desligam emocionalmente. Param de opinar, de propor, de se envolver. Continuam presentes, mas já não estão inteiros. E esse é um dos sinais mais perigosos para qualquer organização.
Para fortalecer esse vínculo, algumas práticas são essenciais: liderança presente, comunicação clara, reconhecimento verdadeiro, feedbacks contínuos, desenvolvimento, escuta ativa e coerência entre discurso e prática. Não são ações sofisticadas. São atitudes básicas, mas que ainda faltam em muitos ambientes.
Também é preciso compreender que carreira deixou de ser uma estrada única. As pessoas querem aprender, equilibrar vida e trabalho, construir relações saudáveis e enxergar futuro. Quando não encontram isso, começam a negociar silenciosamente sua saída.
O novo contrato emocional não elimina metas, cobrança ou responsabilidade. Pelo contrário. Ele torna tudo mais sustentável, porque pessoas comprometidas por confiança entregam de forma diferente de pessoas movidas apenas por obrigação.
Talvez seja esse o grande desafio da gestão contemporânea: entender que vínculo não se impõe. Vínculo se constrói, se cuida e se renova todos os dias.
Porque, no fim, empresas não perdem pessoas apenas quando elas pedem demissão. Muitas vezes, perdem antes, quando deixam de fazer sentido.
Neidy Christo é presidente da ABRH-ES, doutora em Administração e Consultora em Desenvolvimento Humano

Fonte: https://esbrasil.com.br/contrato-emocional-empresas-profissionais/