Cuidar da saúde mental e financeira não é apenas um gesto de empatia, é uma estratégia de negócio
Por Eduarda Martins
Falar sobre saúde mental nas empresas já não é novidade. Desde a pandemia, tornou-se evidente o quanto profissionais adoecem em silêncio. O que ainda recebe pouca atenção é a relação direta entre saúde mental e saúde financeira, duas dimensões que caminham juntas e influenciam o comportamento, as decisões e o desempenho no trabalho.
Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), realizada pela Confederação Nacional do Comércio (CNC), em julho de 2024, 78,1% das famílias brasileiras estavam endividadas e 29,8% tinham dívidas em atraso (CNC, 2024). Esses números representam mais do que falta de recursos, pois refletem noites mal dormidas, ansiedade constante e desgaste nas relações familiares e profissionais.
Um colaborador que convive com a pressão das contas atrasadas carrega uma carga emocional que impacta diretamente sua concentração, sua tomada de decisão e sua percepção de segurança no trabalho. Quando a mente está em alerta, o corpo responde e o rendimento cai. Cria-se um ciclo silencioso em que as dificuldades financeiras agravam a saúde emocional e o sofrimento psíquico dificulta reorganizar as finanças.
Durante muito tempo acreditou-se que problemas pessoais deveriam ficar fora do ambiente profissional. Essa fronteira não existe. Emoções, preocupações e dívidas atravessam a porta da empresa todos os dias. Profissionais mentalmente sobrecarregados apresentam maior risco de afastamentos, falhas operacionais e acidentes. Organizações que reconhecem essa realidade e acolhem seus times de forma integral fortalecem a cultura de cuidado e reduzem riscos.
Ser líder nesse contexto significa enxergar o colaborador como um ser humano completo, com histórias, responsabilidades e desafios que ultrapassam o crachá. Criar espaços de escuta e confiança é essencial para que pedir ajuda não seja visto como fraqueza. Essa atitude humaniza as relações, fortalece vínculos e sustenta equipes mais engajadas, seguras e produtivas.
Empresas que desejam evoluir nesse tema podem investir em programas de educação financeira, oferecer apoio psicológico, capacitar gestores para identificar sinais de sobrecarga e incluir os riscos psicossociais previstos na revisão da NR 01. Essas práticas reduzem absenteísmo, turnover e acidentes, promovendo um ambiente mais saudável e sustentável.
Cuidar da saúde mental e financeira não é apenas um gesto de empatia, é uma estratégia de negócio. Em um mercado competitivo, olhar para as pessoas de forma integral é a chave para construir organizações fortes, humanas e preparadas para o futuro. O maior investimento que uma empresa pode fazer continua sendo o mesmo: cuidar de quem faz tudo acontecer, as pessoas.
Eduarda Martins é psicóloga, consultora em saúde mental e financeira e voluntária da ABRH-ES.

Fonte: https://esbrasil.com.br/saude-mental-e-financeira-o-impacto-invisivel-nas-empresas/